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Bahia: o estado que está entre os mais violentos do Brasil, mas tem a menor taxa de encarceramento. O que explica essa contradição?

há 1 dia
7 min de leitura

Dados oficiais de 2025 revelam que a Bahia ocupa a segunda posição nacional em mortes violentas intencionais e, simultaneamente, apresenta a menor taxa de aprisionamento do país. Esse contraste levanta questionamentos sobre a efetividade das políticas de segurança pública e a resposta das instituições à criminalidade.



Uma contradição que merece ser discutida


A violência é um dos problemas mais graves enfrentados pela sociedade brasileira. Todos os anos, milhares de famílias perdem parentes em decorrência de homicídios e outras formas de violência letal, enquanto governos anunciam investimentos, operações policiais e programas destinados a combater a criminalidade.

Mas uma pergunta permanece: as políticas públicas estão produzindo os resultados que a sociedade necessita?


Os indicadores de 2025 revelam uma situação particularmente preocupante na Bahia.

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2026, o estado registrou uma taxa de 36,8 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, a segunda maior do país.


Entretanto, segundo o levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), por meio do SISDEPEN, a Bahia apresenta uma taxa de apenas 115,4 pessoas encarceradas por 100 mil habitantes, a menor entre as 27 unidades da Federação.


É uma diferença que chama a atenção e merece ser analisada.

Por que um estado com tamanha incidência de violência letal apresenta a menor população prisional proporcional do Brasil?


Estaríamos diante de limitações na investigação e responsabilização dos crimes, de características específicas do sistema penitenciário ou de escolhas de política pública que precisam ser reavaliadas?


Mais do que isso: até que ponto a permanência de índices tão elevados de violência pode indicar uma normalização institucional de uma realidade que deveria ser tratada como absolutamente inaceitável?


Mais de 5,4 mil mortes violentas em apenas um ano


Os números do Anuário dimensionam a gravidade do problema.

Em 2025, a Bahia registrou 5.473 mortes violentas intencionais, contra 6.047 em 2024.


Isso representa uma redução de aproximadamente 9,5% no número de mortes. É uma melhora que precisa ser reconhecida. Entretanto, mesmo com essa redução, o estado ainda registrou uma média de aproximadamente 15 mortes violentas por dia.

Em outras palavras, a cada 24 horas, cerca de 15 pessoas perderam a vida de maneira violenta na Bahia, considerando as categorias que compõem o indicador de MVI.

A taxa estadual de 36,8 mortes por 100 mil habitantes ficou muito acima da média brasileira, de 19,1.


A Bahia, portanto, apresentou uma taxa de violência letal aproximadamente 93% superior à média nacional.


A redução das mortes é uma notícia positiva, mas isso não significa que o problema esteja resolvido.


Uma política pública não deve ser avaliada apenas pela melhoria de seus indicadores em relação ao passado, mas também pelo nível de segurança efetivamente alcançado pela população.


A Bahia e o menor índice de aprisionamento do Brasil


Os dados do 19º ciclo do SISDEPEN, referentes ao segundo semestre de 2025, revelam outro aspecto importante. Em 31 de dezembro de 2025, a Bahia possuía 16.724 pessoas custodiadas em celas físicas, de acordo com o levantamento da SENAPPEN.

Quando esse quantitativo é relacionado à população residente estimada, a taxa é de aproximadamente 115,4 presos para cada 100 mil habitantes.


Trata-se da menor taxa entre as unidades federativas. Para compreender a dimensão dessa diferença, basta observar outros estados. Mato Grosso do Sul apresenta 628,2 pessoas encarceradas por 100 mil habitantes. O Acre registra 620,1, enquanto o Espírito Santo alcança 613,6.


No Amapá, a taxa é de 494,3 presos por 100 mil habitantes. Em Rondônia, de 483,7.

A Bahia, portanto, apresenta um nível proporcional de encarceramento significativamente inferior ao desses estados.


Isso não significa que exista uma quantidade ideal de pessoas presas ou que o Brasil deva aumentar indiscriminadamente sua população carcerária. Uma taxa elevada de aprisionamento pode refletir diferentes características criminais, judiciais e penitenciárias, inclusive a duração das penas, o uso da prisão provisória e a composição dos delitos.


Da mesma forma, uma taxa reduzida não comprova ausência de punição.

Entretanto, quando o estado com a menor taxa de encarceramento também apresenta uma das maiores taxas de violência letal, surge uma questão legítima: o sistema de segurança pública e justiça criminal está conseguindo oferecer uma resposta efetiva à gravidade da violência?


O contraste com Amapá e Rondônia


A comparação com outros estados torna essa discussão ainda mais interessante.

O Amapá apresenta a maior taxa de mortes violentas intencionais do país, com 42,5 ocorrências por 100 mil habitantes. Ao mesmo tempo, registra 494,3 pessoas encarceradas por 100 mil habitantes.


Rondônia, por sua vez, possui uma taxa de encarceramento muito próxima, de 483,7, mas registra uma taxa de mortes violentas de 28,1 por 100 mil habitantes. Temos, portanto, três situações bastante diferentes:


  • Bahia: encarceramento proporcionalmente baixo e violência letal elevada.

  • Amapá: encarceramento elevado e violência letal também elevada.

  • Rondônia: encarceramento elevado e violência letal consideravelmente menor que a do Amapá.


Esses exemplos mostram que não existe uma relação automática entre maior número de presos e menor violência.


A criminalidade depende de vários fatores, incluindo a atuação das organizações criminosas, as condições socioeconômicas, a efetividade das investigações, o funcionamento da Justiça e as políticas de prevenção.


Mesmo assim, a comparação reforça a necessidade de avaliar o desempenho das instituições responsáveis por prevenir e enfrentar a violência.


Outro dado preocupante: a letalidade policial


O Anuário também apresenta uma informação que amplia o debate sobre a segurança pública baiana.


Das 5.473 mortes violentas intencionais registradas na Bahia em 2025, 1.570 foram classificadas como mortes decorrentes de intervenções policiais.

Isso corresponde a aproximadamente 28,7% de todas as mortes violentas intencionais do estado.


Em termos simples, quase três em cada dez mortes incluídas no indicador de violência letal decorreram de intervenções policiais.


Em 2024, haviam sido registradas 1.556 mortes dessa natureza. Portanto, enquanto o total de mortes violentas diminuiu em 2025, o número de mortes decorrentes de intervenções policiais apresentou uma pequena elevação.


Esse dado acrescenta uma dimensão importante à discussão. A Bahia não apresenta simplesmente um cenário de pouca atuação policial. A elevada participação das mortes decorrentes de intervenções policiais revela a necessidade de examinar também a intensidade, os resultados e os protocolos de uso da força pelo Estado.


A questão, portanto, não se resume a prender mais ou prender menos. É necessário discutir a capacidade de realizar investigações, desarticular organizações criminosas, responsabilizar autores de delitos e preservar vidas, inclusive durante as operações de segurança.


Existe uma possível tolerância institucional com a violência?


Essa talvez seja a questão mais delicada — e também uma das mais importantes — para o debate público.


Quando uma sociedade convive durante anos com indicadores elevados de criminalidade, existe o risco de que a violência passe a ser percebida como parte inevitável da realidade cotidiana.


As mortes continuam acontecendo, os números são divulgados, as autoridades anunciam providências e a população segue convivendo com a insegurança.

Nesse contexto, é legítimo questionar se a persistência do problema pode revelar algum grau de acomodação institucional diante de resultados insatisfatórios.

Mas é necessário fazer uma distinção: normalizar resultados ruins não é a mesma coisa que colaborar deliberadamente com criminosos.


Os dados apresentados não demonstram conivência, omissão intencional ou qualquer acordo entre autoridades e organizações criminosas. Para formular uma acusação dessa natureza, seriam necessárias evidências específicas.


O que os números permitem questionar é se as respostas institucionais estão sendo suficientes para enfrentar a dimensão da violência no estado. Uma administração pública pode desenvolver diversas ações de segurança e, ainda assim, apresentar resultados insuficientes.


É exatamente por isso que políticas públicas precisam ser avaliadas com transparência, indicadores verificáveis e responsabilização administrativa e política pelos resultados.


O problema não é simplesmente prender mais


Seria equivocado concluir que a Bahia deveria alcançar a mesma taxa de encarceramento do Mato Grosso do Sul, do Acre ou do Amapá. A quantidade de pessoas presas, isoladamente, não constitui indicador suficiente da qualidade da segurança pública.


O encarceramento deve decorrer da aplicação da lei e das decisões do sistema de justiça, respeitando os direitos fundamentais e as garantias processuais. Por outro lado, também seria inadequado utilizar essa constatação para afastar qualquer cobrança sobre a atuação estatal.


O desempenho da segurança pública precisa ser avaliado por diferentes critérios: prevenção, esclarecimento de crimes, responsabilização penal, reincidência, controle territorial de organizações criminosas e redução sustentada da violência.


Uma política de segurança efetiva não é necessariamente aquela que mais encarcera, mas aquela que consegue proteger a população, combater o crime dentro da legalidade e produzir resultados duradouros.


O que as autoridades deveriam explicar?


Os números apresentados justificam perguntas que precisam ser respondidas de maneira objetiva pelas instituições responsáveis pela segurança e pela justiça criminal da Bahia.


Qual é a proporção de homicídios efetivamente esclarecidos?

Quantos autores de crimes violentos são identificados, denunciados e responsabilizados?


Como evoluíram os ingressos e as saídas do sistema prisional nos últimos anos?

Qual é o papel da capacidade penitenciária e das diferentes modalidades de execução penal na reduzida taxa estadual de encarceramento?


E, principalmente, quais políticas têm produzido resultados mensuráveis na redução da violência letal?


Essas perguntas são mais relevantes do que a simples defesa de endurecimento penal ou de ampliação indiscriminada do encarceramento.


Considerações finais: a violência não pode ser tratada como normal


A Bahia registrou avanços na redução das mortes violentas em 2025, mas continua apresentando um dos indicadores mais elevados de violência letal do Brasil.

Ao mesmo tempo, ocupa a última posição nacional em taxa de aprisionamento em celas físicas.


Esse contraste não comprova que as instituições sejam coniventes com a criminalidade. Entretanto, é um ponto de partida legítimo para cobrar explicações sobre a efetividade das políticas públicas e o funcionamento do sistema de justiça criminal.


Os dados também mostram que estados com níveis semelhantes de encarceramento podem apresentar realidades muito diferentes em relação à violência.

Não existem respostas simples.


Mas existe uma responsabilidade fundamental que não pode ser relativizada: proteger a vida das pessoas.


A questão central não é quantas pessoas a Bahia consegue colocar na prisão, mas quantas vidas suas políticas de segurança conseguem preservar e quantos crimes suas instituições conseguem esclarecer e responsabilizar.


Diante de mais de 5,4 mil mortes violentas em um único ano, cabe uma pergunta que não deveria ser ignorada: Estamos diante de um problema de capacidade institucional, de escolhas equivocadas de política pública ou de uma preocupante normalização da violência?


A sociedade tem o direito de exigir uma resposta.


Fontes e nota metodológica


Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026). 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Indicadores de mortes violentas intencionais e mortes decorrentes de intervenções policiais em 2024 e 2025.


Secretaria Nacional de Políticas Penais — SENAPPEN (2026). Relatório de Informações Penais, 19º ciclo SISDEPEN, julho a dezembro de 2025. População prisional em 31 de dezembro de 2025.


As taxas de aprisionamento correspondem à população custodiada em celas físicas, não incluindo todas as modalidades de prisão domiciliar. Os indicadores de mortes violentas e de encarceramento medem fenômenos diferentes. Sua comparação é descritiva e não estabelece causalidade, omissão institucional deliberada ou conivência com a criminalidade.


 
 
 

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