Violência doméstica no Brasil: o que muda entre homens, mulheres e diferentes estados civis?
Quando se fala em violência doméstica, a maior parte das discussões — corretamente — chama atenção para a maior exposição das mulheres. Mas os dados mostram que o fenômeno é mais complexo: homens também aparecem como vítimas, e a intensidade dessa vitimização varia de acordo com características sociais, econômicas e, especialmente, com o estado civil.

Foi justamente essa questão que motivou um estudo desenvolvido a partir dos microdados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 (PNS 2019).
O objetivo foi responder a três perguntas principais: qual é a prevalência de violência doméstica entre homens e mulheres no Brasil? Quais características estão associadas a essa vitimização? E o estado civil modifica a diferença observada entre os sexos?
O que foi considerado violência doméstica?
O estudo não considerou apenas o local onde ocorreu a violência.
A classificação levou em conta a relação entre vítima e agressor. Foram considerados episódios de violência psicológica, física ou sexual praticados por cônjuge ou companheiro, ex-cônjuge ou ex-companheiro, namorado ou ex-namorado, pais, padrastos, filhos, enteados, irmãos ou outros familiares.
Essa escolha é importante porque permite diferenciar violência doméstica ou familiar de outras formas de violência interpessoal.
Mulheres apresentaram maior prevalência, mas a vitimização masculina não é desprezível
Os resultados mostram uma diferença clara entre os sexos.
Entre as mulheres, a prevalência ponderada de violência doméstica foi de 11,49%.
Entre os homens, foi de 5,24%.
Em termos simples, a prevalência masculina correspondeu a aproximadamente 46% da prevalência observada entre as mulheres.
Esses resultados não significam que exista simetria entre a violência sofrida por homens e mulheres.
A literatura mostra que as mulheres permanecem mais expostas a formas graves de violência nas relações íntimas, inclusive lesões, violência sexual e controle coercitivo.
Ao mesmo tempo, uma prevalência superior a 5% entre os homens indica que a vitimização masculina não deve ser ignorada.
Um dos desafios, inclusive, é que homens podem enfrentar maior resistência para reconhecer ou comunicar situações de violência, seja por vergonha, estigma ou expectativas sociais associadas à masculinidade.
Idade faz diferença
Outro resultado bastante claro foi a relação entre idade e violência doméstica.
A prevalência diminuiu progressivamente à medida que a idade aumentou.
Tomando como referência os adultos de 18 a 29 anos, todos os grupos etários mais velhos apresentaram menor prevalência ajustada, sendo a redução mais intensa entre pessoas com 60 anos ou mais.
Esse resultado acompanha evidências anteriores de que a violência por parceiro íntimo tende a se concentrar mais entre adultos jovens.
Renda e escolaridade também importam
Os resultados também mostram um padrão socioeconômico.
Indivíduos com maior escolaridade e renda apresentaram, em geral, menor prevalência de violência doméstica.
Já o desemprego esteve associado a maior prevalência. Isso não significa, entretanto, que renda ou desemprego sejam necessariamente causas diretas da violência.
Como o estudo utiliza dados transversais, também é possível que a própria experiência de violência afete emprego, renda e trajetória educacional.
Por isso, o resultado deve ser entendido como uma associação, e não como causalidade.
Álcool e orientação sexual
O consumo mensal de álcool também apresentou associação positiva com a violência doméstica.
Além disso, indivíduos que se declararam bissexuais ou homossexuais apresentaram prevalências ajustadas superiores às observadas entre heterossexuais.
Esse resultado chama atenção para um aspecto importante: a violência doméstica não deve ser analisada exclusivamente a partir de relações heterossexuais entre homens e mulheres.
A orientação sexual e a configuração das relações também fazem parte desse fenômeno.
O resultado que mais chamou atenção: o estado civil
O resultado mais interessante do estudo apareceu quando se analisou a interação entre sexo e estado civil.
Divorciados ou separados apresentaram as maiores prevalências ajustadas de violência doméstica entre ambos os sexos: 17,02% entre mulheres e 9,73% entre homens.
Entre os casados, as prevalências foram de 10,36% para mulheres e 3,87% para homens.
Entre solteiros, 12,37% e 5,43%.
Entre viúvos, 10,75% entre mulheres e 7,50% entre homens.
O mais importante não é apenas perceber que mulheres apresentam maiores prevalências.
A diferença entre homens e mulheres muda de acordo com o estado civil.
Entre viúvos, por exemplo, a diferença foi menor e não apresentou significância estatística.
Já entre divorciados ou separados, a vitimização foi elevada para ambos os sexos.
Por que divorciados e separados apresentam prevalências maiores?
Esse resultado precisa ser interpretado com cuidado. Não significa que o divórcio provoque violência. A literatura sobre violência pós-separação mostra que podem ocorrer pelo menos três situações.
A violência pode já existir antes da separação e contribuir para o rompimento da relação.
Ela também pode se intensificar durante o processo de separação.
Ou pode continuar mesmo depois do término da relação.
Conflitos relacionados à guarda dos filhos, pensão, patrimônio, residência e outras responsabilidades familiares podem manter o contato entre ex-parceiros e criar oportunidades para a continuidade de comportamentos abusivos. O próprio estudo destaca que a separação pode representar um contexto de maior vulnerabilidade, sem que seja possível determinar, com dados transversais, se a violência ocorreu antes, durante ou depois do rompimento.
Há ainda uma característica metodológica importante: na definição utilizada no estudo, ex-cônjuges e ex-parceiros também podem ser classificados como agressores.
Isso torna ainda mais relevante analisar o estado civil não apenas como uma característica demográfica, mas como parte da trajetória relacional dos indivíduos.
Mulheres continuam sendo o grupo mais afetado
Um cuidado importante é não utilizar esses resultados para minimizar a violência contra as mulheres. Os dados mostram exatamente o contrário.
Em praticamente todos os estados civis analisados, as mulheres apresentaram prevalências superiores às dos homens.
A contribuição do estudo está em mostrar que reconhecer a maior exposição feminina não exige ignorar a existência da vitimização masculina.
As duas evidências podem coexistir.
O que esses resultados sugerem para políticas públicas?
Os achados indicam que políticas de prevenção e serviços de apoio precisam continuar priorizando a proteção das mulheres, dada sua maior exposição à violência doméstica.
Mas também precisam estar preparados para identificar outros grupos vulneráveis.
Isso inclui homens vítimas de violência, pessoas pertencentes a minorias sexuais e indivíduos em processos de separação ou divórcio.
A dissolução de relacionamentos, em especial, pode ser um momento importante para estratégias de acompanhamento, prevenção, proteção e encaminhamento.
Limitações importantes
Como todo estudo, este também possui limitações.
A PNS é transversal, portanto não permite estabelecer causalidade.
Também não é possível saber com precisão se a violência ocorreu antes, durante ou depois de uma separação.
Além disso, as informações são autorreferidas, o que pode gerar subnotificação, principalmente em situações marcadas por medo, vergonha ou estigma.
O estudo também agregou violência psicológica, física e sexual em uma única medida. Dessa forma, não foi possível diferenciar intensidade, frequência, presença de lesões ou controle coercitivo.
O que ainda precisamos investigar?
Os resultados abrem várias possibilidades para novos estudos.
Uma delas é acompanhar indivíduos ao longo do tempo para compreender melhor a relação entre violência e dissolução conjugal.
Também seria importante separar os diferentes tipos de violência, investigar quem é o agressor, avaliar a gravidade das agressões e compreender melhor a violência praticada por ex-parceiros.
Outro campo relevante é analisar como sexo, orientação sexual, raça, renda e identidade de gênero interagem na produção de diferentes padrões de vitimização.
Em síntese
Os dados mostram que a violência doméstica no Brasil permanece fortemente marcada pelo sexo: as mulheres apresentam prevalência substancialmente maior.
Mas mostram também que a realidade é mais heterogênea do que uma simples comparação entre homens e mulheres.
Idade, renda, escolaridade, trabalho, álcool, orientação sexual e, principalmente, estado civil ajudam a compreender essa heterogeneidade.
O resultado mais marcante talvez seja justamente este: divorciados e separados formam o grupo com maior prevalência de violência doméstica entre ambos os sexos.
Compreender quando, como e por que a violência persiste durante e depois do término das relações pode ser um passo importante para desenvolver políticas de prevenção e proteção mais efetivas.





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